Tuesday, March 25, 2014

É cedo. Para querer, para concretizar. Ainda há uma montanha russa de emoções, de incertezas e indefinições, como que vento na cara, dor na barriga, medo, euforia, entusiasmo, queda livre. Tudo ao mesmo tempo. É cedo. Um dia vai deixar de ser.

No tempo da escola

Quando fui para o ciclo o meu pai trabalhava nessa mesma vila onde a minha escola existia. Desde aí que partilhamos hábitos de viagem. Saíamos muito cedo e quando o tempo era mais frio, o vidro do carro tinha uma crosta de gelo colada que o meu pai desfazia com a água da mangueira que estava sempre ali à mão; às vezes tinha que ir buscar água morna, que a fria não fazia o gelo derreter. Lembro as manhãs geladas, mas de sol; lembro as ervas verdes na beira da estrada como que cristalizadas pela geada; lembro as mãos geladas que esfregava uma na outra para aquecer; lembro o cheiro do frio e da névoa que de manhã ainda se fazia sentir.
Fazíamos as viagens numa 4L branca que o meu pai chamava de "carro de assalto" porque, dizia, andava por todo o lado. Por vezes atalhávamos caminho por uns campos com searas altas ou por terrenos plantados de oliveiras onde volta e meia ficávamos atascados. Depois era chamar quem por ali andasse a cultivar ou a passar na estrada, levantava-se o braço e sempre parava alguém; uns traziam umas tábuas, outros empurravam e de lá se tirava o "carro de assalto" com muitos agradecimentos e alguma conversa. Às vezes ainda vinham umas couves ou uma galinha que chegavam com as tábuas e que acabávamos por aceitar. Eu soprava porque a idade não permitia outra coisa; refilava muito e aborrecia-me de chegar tarde a casa e de termos sempre que experimentar os caminhos novos porque eram mais curtos. Hoje vejo que nada era um problema, ninguém era estranho e não havia nada que não se resolvesse.

Levávamos sempre o tempo contado e chegar atrasado era só se fosse depois da hora da aula começar; se a aula começava às nove, só estávamos atrasados às nove horas e um minuto, antes disso ainda íamos a tempo. Fazíamos sete minutos do cruzamento à entrada da escola; não eram cinco, nem dez, eram sete. O relógio estava sempre certo e ia como bússola, central no carro, mas não era o suficiente para chegarmos a horas, ou melhor, chegávamos sempre a horas, nunca atrasados. Eu já sabia que tinha que sair a correr e ir directa à sala. Via o horário na capa do caderno para saber qual era o número da sala e tinha tudo pronto nos sete minutos para não demorar ainda mais a sair do carro. Lembro o calor que deixava dentro do carro e o frio que se voltava a sentir fora dele.

Regressávamos à noite. Fazia sempre um esforço por não adormecer para ele não ter que fazer a viagem sozinho, então conversávamos sempre muito. Nem sempre resultava e por vezes o cansaço vencia, principalmente na altura dos exames, então ele desligava o rádio para não fazer barulho e nunca, nunca me acordava.

E assim se passaram oito anos, sem existir rotina porque as aventuras eram sempre muitas. Havia sempre espaço para o próximo, para pensar no bem estar do outro; os meus amigos eram os nossos amigos, quem ia lá a casa era da família e toda a gente se sentia lá bem. São tesouros em forma de memórias, são momentos que definem o que somos, são recordações que trago sempre comigo e que ainda hoje me ensinam tanta coisa. Só atascamos se deixarmos, se baixarmos os braços em vez de os levantar, se não estivemos atentos o suficiente para saber usar uma tábua. O problema só passa a existir quando desistimos de procurar a solução, mais ou menos à mesma hora que estamos atrasados.

Friday, March 07, 2014

Hoje, oficialmente.

E foi hoje que se tornou oficial. Para o mundo, não para mim. Tenho um carimbo na testa e um ferro em brasa no coração. Lá, no mesmo sítio onde oficializámos o que construímos, oficializámos hoje o que se desmoronou. Tinha que ser assim porque não podia ser de outra maneira. Não há mais argumentos ou explicações, foi assim. "Há gente que fica na história, na história da gente; e outras de quem nem o nome lembramos ouvir", já dizia a canção. O dia de hoje vai ficar no meio desta definição, até um dia se perder e ficar apenas aquela memória antiga, aquele travo de aprendizagem misturado com passado. Uma coisa é certa, tão cedo não me vou permitir sofrer.



Tuesday, March 04, 2014

O blogue vai fechar

E como se avizinham muitas mudanças - e para melhor muda-se sempre - há que começar de novo. E neste meu espaço que já existe há tanto tempo quanto o que eu tenho que refazer, também vai haver mudança. Por isso decidi fechar o blogue. Não sei quando, não sei se abro outro, só sei que este vai deixar de existir, de fazer sentido. Se calhar faço um livro como fez o Oso e arrumo dois assuntos :)
Em contagem decrescente para mudar de casa, vou mudar também de blogue para a mudança ser ainda mais radical. Se é para recomeçar, que seja de novo. Já sabem, o último a sair, apaga a luz. Eu depois aviso.

A morte: o filme da tua vida

Cada vez me convenço mais que é disto que se trata: um filme. A morte é um filme assistido com consciência. A morte é uma sala de cinema onde tu és ao mesmo tempo o protagonista e o público que assiste. A diferença está na visão com consciência. Tu vês com os olhos abertos e com o coração no lugar certo, a sentir com verdade, sem ilusões ou falsas consolações. Assistes às tuas escolhas, mas à luz da consciência, sempre a consciência, porque é ela que julga. É nesse inferno que vais arder (ou não), no da tua consciência, na noção do erro, da falha, da dor, da mágoa, do egoísmo, da luxúria e futilidade. Nesse momento tu sentes com consciência e sentes o que feriste, magoaste, ignoraste. Nessa curta metragem que é a tua vida, tu descobres quem tu és, quem tu foste e o que todos viram de ti. É da nossa consciência que devemos ter medo, nada mais. É de não a ter. A morte é um filme que se assiste e todos temos bilhete comprado.

O Nózinhu está mais leve

E para acabar de vez com a masculinidade nesta casa, o Nó já não tem tintins. É oficial e está oficialmente comunicado. Vá lá, vá lá.....a capar alguma coisa, que seja o gato.
Isto é estranho. Mas de alguma forma faz-me lembrar o Verão. Acho que gosto.