Monday, May 07, 2012

Com os olhos rasos de lágrimas disse-me que tinha feito um aborto. Fiquei estática, fixada nela, não estava a perceber de onde vinha aquela conversa. Disse-me que sim, que era contra, mas que afinal era contra quando não era com ela. Foram uns dias de distracção, mais agitados, esqueceu-se de tomar  a pílula e nunca mais pensou nisso, afinal, havia algum tempo que não estava empregada e por isso estava muito mais ocupada. Disse-me que sim, que tinha a certeza porque acabou por ir ao hospital para confirmar, porque ela própria estava incrédula, e lá, teve a oportunidade de ouvir o bater do coração do que muitos chamam um "aglomerado de células" - o aglomerado às quatro semanas já tem ritmo cardíaco e já muda vidas. Disse-me que tinha sido acompanhada, que o namorado queria que ela avançasse com a gravidez, que a mãe tinha aberto uma garrafa de champanhe quando soube da notícia e que o pai nunca chegara a saber. Disse-me que pensou muito sobre o que fez, que lhe foi muito doloroso levar a decisão até ao fim. Disse-me que estava empregada, a trabalhar, que teve medo e ao mesmo tempo esperança que a vida melhorasse a partir dali, que podia evoluir e ter uma vida melhor e mais estável para depois mais tarde ter os desejados filhos. Disse-me o quão difícil é ter que carregar no botão e ver  a água levar o que estava dentro de nós, o que há instantes batia de vida dentro dela ia agora pelo esgoto, como qualquer dejecto que queremos longe. Hoje todos os dias pensa nisso, pensa naquele dia, naquele som do coração a bater, pensa no que podia ter mudado na vida dela. Hoje chora cada vez que se lembra e quer que a sua história ajude alguém como ela, a não tomar a decisão errada, a não carregar para sempre esse memória, esse amargo de arrependimento. Hoje vai fazer as malas e mudar de cidade porque afinal não conseguiu mudar assim tanto a sua vida, nem evoluir tudo o que queria.

Fica o testemunho, fica o conselho de não se guardar apenas para si mesma. Fica a vontade de que o seu exemplo sirva para ajudar outras já que a ela própria não lhe serviu a ajuda. Eu deixo a disponibilidade de ajuda a passar a palavra, a pena de não ter sabido na altura ou o egoísmo de não ter estado suficientemente atenta para perceber. Desculpa se não fui que chegasse.

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