Tuesday, October 18, 2011

Famílias abertas e fechadas: o conceito

Há já muito tempo que penso neste conceito. Normalmente estes pensamentos mais persistentes, ou que eu própria dou a oportunidade de viver, acabam aqui, no blog, traduzidos para qualquer coisa mais concreta, mais, ou menos próximo daquilo que são.
Este conceito de família aberta ou fechada persegue-me já há alguns anos. A minha família - que ainda vejo como os meus pais e os meus irmãos, mas que, de facto, se afasta cada vez mais desse pequeno núcleo, para ser já os meus pais, os meus irmãos, as minhas cunhadas, os meus sobrinhos e o agora meu marido! - sempre foi uma família aberta, às vezes escancarada - e ainda tendo eu já a minha família (de apenas dois elementos, mas já uma família), tenho-os sempre todos como a minha família. Uma família aberta é uma família onde nós conseguimos estar sem perceber que não é a nossa família, ou seja, é uma família aberta aos outros. Aberta de coração, de mente, de exemplos, de preconceitos - aqui mais liberta. Uma família aberta põe um lugar a mais na mesa, sem perguntar se vais querer jantar; uma família aberta, dá-te os copos para levares para a mesa e quando vês estás no meio das tarefas daquele momento; uma família aberta é um exemplo, faz-te ver como as famílias devem ser, sem provocar inveja ou discordâncias; uma família aberta, deixa-te entrar antes de quereres, e quando dás conta, fazes parte dela há anos. Isto é uma família aberta, é o meu conceito de família, é o que os meus amigos conhecem, é ter amigos que conhecem os meus pais e gostam deles como amigos também. Uma família é isto, não há ninguém melhor ou pior que ninguém; não há ser mais ou ter mais, não há o espreitar pelo canto do olho para ver se os filhos do vizinho se portam pior do que os nossos, não há aquela voz a sussurrar que os meus filhos são melhores do que os dos outros. A minha mãe sempre disse que os dela não eram melhores nem piores, eram iguais. E somos. Não há melhor nem pior, só se gosta mais dos nossos - digo eu que não tenho nenhum! É este o meu conceito de família, é uma casa cheia, é uma mesa com mais de vinte, todos apertados, mas contentes; é dormirem uns nos quartos, outros no chão, outros no carro, outros na caravana e quando a malta mais nova chegava da noite, trocava com os que se estavam a levantar de manhã e que já tinham dormido tudo. Bem sei que não se pode viver assim para sempre (ou pode, talvez haja quem o faça, a Isabel Allende parece que tenta, pelo que escreve) e que nem todas as pessoas se adaptam a um ritmo de gente tão "preenchido", mas ainda assim, com menos gente, com aquela que nos rodeia, mas ao menos com esses, sejamos uma família aberta. A alternativa é ser uma família fechada que começa logo com a mentira de não ter problemas, porque não os partilha, porque não deixa que ninguém os conheça, para que não digam que têm "defeitos". Depois disso vem o egoísmo de pensar que os filhos que têm são sempre melhores do que os outros, ainda que seja evidente quando assim não é. Mais do que este egoísmo, perturba-me aquele outro que deixa de dar aos outros para dar aos deles, ainda que não lhes seja de direito; ao invés de se partilhar por todos o que é de todos, não, tenta-se sempre desviar para aqueles, que são os especiais, porque são "os da família". Pois evidentemente que se quer sempre o melhor para os que trazemos mais dentro do coração, mas não se prejudica ninguém por esse motivo. Pode não se favorecer o outro em prol daqueles que mais amamos, mas também não se vai magoar o outro que, se pararmos para pensar - mas aqui é preciso, lá está, pensarmos um bocadinho nos outros, o que nem todos conseguem! - também há-de ser muito querido por/de alguém.
E depois? Vai-se andar a vida toda atrás deles? Daqueles que são "especiais" porque são da família? É que depois eles crescem e vão ter eles próprios famílias fechadas, só os braços é que alargam, para cercar aquela gentinha "especial", que têm que ser todos muito protegidos porque sabem mais do que os outros, sabem que são "especiais". Esta mesquinhez enoja-me. E entristece-me saber que hoje em dia há cada vez mais famílias assim. Tenho pena deles, que não sabem como é bom poder fazer crescer a família sem ter necessariamente que partilhar o sangue, mas antes o coração que o bombeia...e esse sim, é um sentimento especial.
Eu sou muito feliz porque tenho uma família grande, cheia de pessoas com o mesmo sangue que eu e outras tantas que conheci por aí, pelas estradas da vida e que ainda hoje são da minha família aberta. Sejamos abertos, de mente e de coração.

4 comments:

Anonymous said...

Muito bonito!
Fico contente por ter contribuído para formar uma pessoa tão bonita por fora como por dentro.
Um beijo

Luis said...

Grande texto Di.
E quando é que escreves qualquer coisa para publicar?

Di said...

Olha, olha....um comentário da minha mãe!! Não parece ela, mas acho que é dos nervos :) ehehehe Obrigada mãezinha, sem ti não era nada! Vai aparecendo, sem vergonha! :) ***

Di said...

@Luizinhu, obrigadinhas pelo comentário! :) Mas aqui também já é público :D ehehehe Já tenho a idéia e até já me vão parando alguns bocados pelo pensamento, já não é mau!! Qualquer dia começo. Qualquer dia, sempre qualquer dia. Mas quando começar não páro, prometo! ;) Obrigadinha pela força gaijo ***