Tuesday, May 31, 2011

Afinal não fiquei

Ando há já algum tempo para escrever sobre a conclusão desta minha decisão. Foi numa quarta-feira que me dirigi ao lar para o meu primeiro dia como voluntária. Ia cheia de força e optimismo porque sabia que não ia ser fácil. Fiquei a saber que o lar é privado e que tem apenas quatro funcionárias que fazem turnos de duas de cada vez. Achei pouco, para tantos idosos. Elas disseram-me que era assim, que não havia mais gente e que ia ser muito difícil contratarem mais pessoas para aquela posição. Fiquei a saber que todos os idosos eram visitados regularmente (numa média semanal) por familiares e amigos. Fiquei ainda a saber que muitos deles eram muito conhecidos, quer na cidade de Aveiro, quer nas aldeias vizinhas. Fiquei  a conhecer as instalações do lar e os hábitos das empregadas. Estive com a Dona Alegria e ajudei-a a jantar, muito devagarinho, colherada a colherada e garfada a garfada. Soube da vida dela, de como gostava de ir à feira de Março quando era nova e de como veio para Aveiro há mais de sessenta anos. Disse-me que no lar "estava há pouco tempo, muito pouco tempo". "Desde que abriu, há treze anos", corrigiu depois a funcionária. Disse-me que não tinha a certeza se tinha noventa ou noventa e um anos, mas que noventa tinha de certeza, se era mais ou não é que já não sabia. Gostei de conhecer a D. Alegria que tinha noventa ou noventa e um anos. Foi uma boa experiência, mas não foi suficiente para ficar. Realmente o lar é privado, tem boas condições, as pessoas pagam para estar ali e o mínimo que podiam fazer era contractar mais pessoas como auxiliares, como funcionárias do lar, porque era isso que fazia falta ali, e as próprias funcionárias concordaram comigo. O voluntariado que se pode fazer ali não é tanto com as pessoas, não é tanto aquele bocadinho de descontracção - atendendo que a idade média do lar são os noventa anos -, é antes no sentido de apoio e auxilio a uma instituição privada que alberga ainda uma creche com mais de trinta crianças e que tem obrigação de dispor de pessoas suficientes para prestar o serviço necessário aos seus utentes. Neste caso em particular, o voluntariado pareceu-me uma forma simpática de conseguir mão de obra por um preço consideravelmente mais baixo. Mais, pareceu-me que em tempo de "crise" como todos dizem andar, não seria nada de extraordinário contractar mais uma pessoa, ainda que com um ordenado mais modesto ou até em part-time. Por isso decidi não voltar, não era isto que queria ter encontrado. Não se trata do que eu quero. Chegaram-me a dizer lá nas aulas de Ioga que aquilo era tudo "floreado" meu à volta de uma situação simples. Talvez seja, mas para já vou ficar assim. Fiquei sensibilizada com a causa e não coloquei a hipótese totalmente de parte. Entretanto o novo projecto tem-me devorado o pouco tempo livre que me sobra e por isso não ousei voltar a experimentar. Quero ter a certeza do quero fazer e que o consigo fazer bem. Claramente, este não era o momento. Cheguei a sentir-me mal por ter desistido, mas nada é definitivo e há que pensar que estou sempre a tempo de voltar a experimentar, de me dar a uma nova oportunidade. Tudo nos faz crescer e espero crescer no sentido de conseguir ser uma boa voluntária. No entretanto, vou sendo uma voluntária no dia-a-dia, vou voluntariando o meu coração àqueles que me rodeiam. Pode ser pouco, mas para já é o que consigo fazer bem.

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